Fig.1) Testemunhos de sondagem do poço FRACARES-3 (Sevilheira). Calcário margoso com intercalações bioclásticas, onde a presença da dasicladácea Barattoloporellopsis lusitanica (ex-Heteroporella lusitanica; marcador biostratigráfico: Lâmina delgada FR3T-321m) posiciona estes níveis da Formação de Cabaços na base do Oxfordiano médio. De notar a presença de exsudações de hidrocarbonetos em sistemas de vacúolos imediatamente abaixo dos 320,25m. Secções: Altura - 75 cm; diâmetro - 5cm. INSTITUTO GEOLÓGICO E MINEIRO: Litoteca de Alfragide; Número de Acesso: S-593; Caixas: 234 - 230; Profundidade: 324,80 - 318,28m; Operador: Divisão de Sondagens do I.G.M.; Notas: NPEP; Ano: 2000.


O projecto FRACARES (2001) − "Modelling two-phase flow in fractured carbonate reservoirs: a field scale demonstration" - apresenta-se como um estudo do escoamento e percursos preferenciais deste num reservatório carbonatado "onshore" no vale de Abadia (estrutura de Abadia) em Torres Vedras. Foram efectuados três poços com injecção de água em um deles no intento de registar o retorno nos outros dois. O projecto envolvia a aquisição, processamento e interpretação de dados sísmicos e o planeamento e realização de sondagens, recolha de testemunho e mapeamento dos três poços (FR-1, FR-2 e FR-3), para elaboração de modelos de escoamento em sistemas fracturados concordantes com as informações geológica, geofísica e de escoamento registadas.

O objectivo deste trabalho foi o de caracterizar em termos sedimentares, estratigráficos e petrofísicos as unidades do Jurássico Superior abrangidas pelas sondagens do projecto FRACARES (FR-1, FR-2 e FR-3), essencialmente pela observação detalhada de testemunhos, complementada por análise petrográfica e dos relatórios de sondagem. Foram analisados e descritos os testemunhos do poço onshore FRACARES-3, com ênfase na litologia, texturas, estruturas sedimentares e características petrofísicas (porosidade/permeabilidade). Foi também feito o estudo de lâminas delgadas e consulta da pasta do poço, bem como consulta das pastas dos poços próximos FRACARES-1 e FRACARES-2, visando correlação dos dados.

As principais unidades estratigráficas na área de estudo são as Formações de Cabaços, de Montejunto e de Abadia. A Formação de Montejunto é dividida, segundo o relatório do poço, numa unidade inferior "Micrite" e numa superior "Upper Marls". Todas as formações foram registadas nas três sondagens, contudo a Formação de Cabaços não foi perfurada na sua totalidade.

De acordo com o relatório final do projecto FRACARES a área de estudo apresenta reservatório de hidrocarbonetos (Petróleo pesado: 15-25 ºAPI) não económico a profundidades >150m, caracterizado por calcários de meio marinho aberto do Jurássico Superior, inserido numa estrutura em anticlinal fracturada. O reservatório não apresenta um contacto óleo-água bem definido e é caracterizado por um sistema de falhas saturado em hidrocarbonetos exsudados da rocha geradora subjacente (Formação de Cabaços).

Existem duas razões principais para os sistemas de classificação: (1) fazer descrições sistemáticas e reproduzíveis de propriedades fundamentais das rochas, e (2) facilitar intercâmbio de informação. Os geólogos de reservatório estão interessados em ambas, mas principalmente na relação entre a classificação e as propriedades do reservatório, de forma a que as propriedades das rochas e reservatório tenham características em comum. O presente ensaio é apoiado pelos sistemas de classificação de rochas calcárias quanto à: composição - Folk (1959, 1962), textura - Dunham (1962) e versão ampliada de Embry & Klovan (1971), porosidade e tipologia de poros - Choquette & Pray (1970), estimativa qualitativa da porosidade - Azerêdo (2010) e classificação genética da porosidade - Ahr & Hammel (1999) e Ahr et al., 2005. Desta forma pretende-se o melhor ajuste entre os sistemas de classificação de rochas e propriedades do reservatório de modo que as propriedades deste dependam dos parâmetros utilizados na classificação.
A representação gráfica da sucessão (Log) foi projectada inicialmente com um espaçamento de 10cm e posteriormente com um espaçamento de 50cm, por conseguinte, as observações realizadas sobre os testemunhos de sondagem do poço FRACARES-3 permitiram dividir a Formação de Cabaços em três intervalos e ainda definir o limite entre esta e a Formação de Montejunto (Tabela 1):

O intervalo inferior (C1) apresenta na base uma brecha calcária (brecha de dissolução) limitada a topo por falha. Seguem-se depósitos de meio lacustre caracterizados por uma gradação de calcários margosos a bioclásticos com registo paleontológico de dasicladáceas, ostracodos, foraminíferos, gastrópodes e fragmentos de vegetais. A presença da dasicladácea Barattoloporellopsis lusitanica n. gen. n. comb. (Granier et al., 2017) (ex-Heteroporella lusitanica; marcador biostratigráfico), assim como a ocorrência de níveis repletos de ostracodos (ostracoditos) são elementos que tipificam a Formação de Cabaços posicionando a base desta no Oxfordiano médio (Fig. 1). Estruturas como estilólitos (média amplitude), veios (pouco possantes) e superfícies de dissolução irregulares (carbonáceas) ocorrem dispersos e de acordo com a estratificação, já a bioturbação é mais frequente nos depósitos inferiores. A porosidade varia muito entre leitos desde baixa a elevada com horizontes (ex. nível betuminoso) exibindo percentagens acima dos 20% e uma tipologia maioritariamente gradacional de fractura a canal. As exsudações de hidrocarbonetos ocorrem com frequência em sistemas de vacúolos na base evoluindo para sistemas de fracturas mais a topo.

No intervalo intermédio (C2) verificam-se litologias formadas principalmente por calcários homogéneos compactos e muito recristalizados. Oóides (raros) apresentando envelopes micríticos, pelóides (raros), dasicladáceas (Salpingoporella sp.), ostracodos, foraminíferos e crinóides indicam um meio marinho restrito. Maior possança dos veios, predomínio de estilólitos de grande amplitude (base: sub-horizontais; topo: sub-verticais), e forte ocorrência de superfícies de dissolução irregulares (carbonáceas). O predomínio de sistema de poros do tipo vacuolar verifica-se na sua maioria em veios e confere uma porosidade qualitativa moderada a baixa.

No intervalo superior (C3) calcários margosos intercalados com laminações calcárias com forte registo de carapaças dissolvidas de gastrópodes (organismos pascentes) tipifica esta unidade como lagunar. Laminações, estilólitos de grande amplitude sub-verticais e em swarm e superfícies de dissolução irregulares são frequentes. Uma porosidade moderada de tipologia fenestrada (entre laminações) e moldada (dissolução de carapaças) representa esta unidade.

Um calcário brechóide (textura rudstone) marca o limite entre a Formação de Cabaços e a Formação de Montejunto, apresenta oóides (envelopes micríticos), pelóides, foraminíferos, fragmentos de coraliários. Seguem-se calcários com ostreídeos (halos ferruginosos) e pirite gradando em calcários oolíticos. Estruturas como estilólitos de pequena a média amplitude, veios e superfícies de dissolução (matéria carbonácea) apresentam-se sub-verticais. A porosidade é baixa e do tipo fractura.




O zonamento paleoambiental obtido para a Formação de Cabaços no poço FRACARES-3 pode ser parametrizado com as associações de fácies definidas por Azerêdo et al., 2002: desta forma, o intervalo inferior de cariz mais lacustre corresponderia a Fa 7 e os sobrejacentes a este de cariz mais marinho a Fa 8 destes autores.

Ao confrontar este poço com FRACARES-2 verifica-se que o limite Montejunto "Micrite" - Abadia é efectuado por falha, com um rejeito superior a 70m (Montejunto "Marl"; base de Abadia e topo de Montejunto "Micrite" não ocorrem). A base da Unidade Montejunto "Micrite" é composta por alternância entre calcários micríticos cinzento claros maciços e cinzento escuros. Apresenta fracturação e figuras de dissolução (estilólitos sub-verticais). A Formação de Abadia compreende uma sucessão de sequências margo-lutíticas a areníticas de gradação normal, com base definida por falha. A Fig. 2 apresenta uma proposta de correlação entre os três poços elaborada com base nas colunas litostratigráficas adaptadas de Martins (2000); de notar que o relatório final assim como os registos electromagnéticos e de perfuração todos indicam a presença do Caloviano ("Candeeiros"), presença esta não corroborada pela observação e análise realizadas.

O trabalho presente permite inferir duas conclusões principais, uma metodológica e outra observacional:

1) Escalas de representação menores permitem um maior controlo estratigráfico na leitura de testemunhos de sondagem.
2) O reservatório carbonatado da estrutura de Abadia apresenta-se como Híbrido 2, segundo o modelo de classificação genética da porosidade para rochas carbonatadas de Ahr (2008), embora também se verifiquem processos diagenéticos (dissolução, recristalização) e deposicionais (fenestrada) e é constituído por um sistema de falhas e fracturas impregnadas em hidrocarbonetos exsudados de rochas geradoras do Oxfordiano (ex.: "Formação" de Cabaços).





Na documentação associada a este artigo, disponibilizamos o respetivo resumo na sua integralidade.